Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Em “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, essa é a grande desgraça, pois a dúvida persiste e a dúvida é, tal qual o ciúme, a casa do demo.
Graciliano Ramos relata em “São Bernardo” a inteligência e a independência de Madalena como uma afronta a Paulo Honório, rico e poderoso, que, não sabendo lidar com tanta exuberância, decide rotular a mulher de bruxa, como na Idade Média. Na cabeça dele, ela vira uma adúltera comunista ou uma comunista adúltera, tanto faz; as duas qualidades a jogam no fosso da amargura e o desenlace é fatal.
“Otelo” é um outro clássico do tema, onde Shakespeare faz picadinho da dupla ciúme-inveja. Todos os personagens são vítimas. A trama não deixa pedra sobre pedra, ficando claro que com o ciúme todos saem perdendo.
Mas, se você quiser se livrar definitivamente dessa terrível condenação, leia Bocage. Ele não sopra, nem alivia. Que tal: “O carrancudo e o rábido ciúme, ensangüentadas as corruptas presas...”? Ou essa: “Olhos em brasa, de revés me lança; oh, dor! oh, raiva! oh, morte!... Ei-lo ao meu lado.” ? Gostou?
Talvez haja cura, eu não tenho certeza, mas, de qualquer maneira, não existe meia solução para quem sofre desse mal. É tudo ou nada. Ou o eliminamos ou ele persistirá e vencerá.
Creio que todos temos ciúme, mas algumas neuroses podem levar as pessoas ao absurdo de confundir gente com objetos. Isso se observa quando a sensação de posse de um inibe os passos do outro, nos moldes de um livro ou um cd que não podem sair de perto do dono.
Considero o medo de perder salutar, além de, óbvio, ser normal, mas, em relação às pessoas, sempre me recordo daquela frase que diz: “ Abra a gaiola, pois, se o pássaro não voltar, é porque ele nunca foi seu.”
É difícil? Sim. Dói? Muito. A dor da insegurança é latejante, mas não é perene e ela traz benefícios. Um deles é conhecer verdadeiramente o outro e os seus sentimentos em relação a nós. Aprisionar o corpo não é aprisionar a alma.
O grande Raul Seixas cantou que “o ciúme é só vaidade”. Eu não concordo. O ciúme é mais. Ele é medo de ficar sozinho, é medo de perder apoio, é medo de recomeçar, é vício no outro, é vampirismo, é baixa auto-estima, é birra, é projeção, é trauma de infância e é vaidade...
O antídoto perfeito para o ciúme é o pensamento racional, pois, quando eu raciocino sobre a situação específica que me levou a sofrer, eu consigo uma visão distanciada, que me mostrará variáveis antes não observadas, como “o que eu ganho com esse ciúme?”, ou “se eu sentir ciúmes, isso vai mudar alguma coisa?”, ou ainda “será que essa é a única maneira de ver as coisas?”
Na melhor das hipóteses, o ciúme pode gerar desilusão e acabar em desamor. Mas, na pior, ele pode levar até ao desejo de vingança, o que, em si, já configura uma tragédia.
Pode ser muito romântico definhar por um amor impossível (os melhores amores nunca são tranqüilos e possíveis), mas não há nada de bonito em flagelar-se por ciúmes.
O mais afiado tradutor da paixão, o genial Nélson Rodrigues chegava ao ponto de perguntar, quando uma pobre criatura apaixonada se queixava para ele: “Não lhe basta amar? Você quer, ainda por cima, ser feliz?” E aconselhava a alma sofredora a esconder e digerir o próprio ciúme
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
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